A queda de 60% no lucro do Banco do Brasil no 2º trimestre de 2025 escancarou um problema que os produtores rurais já vinham enfrentando: crédito caro, restrito e cada vez mais difícil de acessar. O próprio banco reconheceu que a inadimplência no agronegócio atingiu recorde histórico, principalmente entre sojicultores, pecuaristas e produtores de milho no Centro-Oeste e no Sul. Para o advogado especialista em direito do agronegócio, Leandro Marmo, a safra 25/26 está seriamente comprometida. Ele lembra que, desde a safra 24/25, as instituições financeiras já haviam endurecido as regras diante do risco crescente de calotes, tornando o crédito extremamente seletivo.

Embora o governo tenha anunciado um Plano Safra recorde de R$ 516,2 bilhões, apenas cerca de R$ 200 bilhões contam com juros subsidiados, bancados por R$ 10 bilhões em equalização pagos pela União. O restante, mais de R$ 300 bilhões, depende de recursos livres captados pelos bancos no mercado financeiro, totalmente sensíveis à Selic, hoje em 15% ao ano, e aos spreads bancários. Na prática, a maior parte do crédito rural segue atrelada ao custo elevado dos juros de mercado. Não por acaso, entre julho e agosto de 2025, os desembolsos de custeio e investimento somaram R$ 86,4 bilhões, queda de 31% em relação a 2024, quando alcançaram R$ 124,7 bilhões. Linhas caras como o Moderfrota, com juros de 13,5% ao ano, praticamente pararam, enquanto Pronaf e Pronamp ainda têm demanda, mas são limitados pelo orçamento.

O custo efetivo do crédito se tornou um gargalo. Além da taxa de juros, produtores relatam imposição de seguros, títulos de capitalização e pacotes de serviços para liberar recursos. A chamada “venda casada” distorce o custo da operação e sufoca o caixa do agricultor. Segundo Marmo, ao somar CAT (Custos Administrativos e Tributários), cartórios e seguros obrigatórios, o custo total pode ultrapassar 40% ao ano, inviável para a margem da maioria das culturas. Ao mesmo tempo, o campo lida com crises climáticas, como estiagens prolongadas e excesso de chuvas, além da queda no preço internacional da soja e insumos ainda caros, como os fertilizantes. O produtor, pressionado, se vê em uma armadilha: precisa financiar a safra para continuar produzindo, mas encontra crédito escasso, caro e cheio de entraves.

O risco é a formação de um ciclo vicioso: juros altos elevam a inadimplência, a inadimplência reduz o apetite dos bancos, o crédito encolhe e volta ainda mais caro. Para Marmo, isso pode levar a um cenário ainda pior no médio prazo: “Quem conseguir acessar crédito agora, vai acessar a um custo impagável. A inadimplência pode ser ainda maior em 2026/27.” Setor e especialistas defendem alternativas como o uso de parte dos recursos do Fundo Social do pré-sal, estimados em R$ 10 bilhões, para reforçar o financiamento agrícola, além da manutenção do Plano Safra até 2026, dando previsibilidade mínima. Sem medidas mais estruturais, o agronegócio brasileiro, motor da economia, corre o risco de travar sob o peso dos juros e do endividamento.

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