A queda de 60% no lucro do Banco do Brasil no 2º trimestre de 2025 trouxe à tona um problema que o campo já vinha sentindo: crédito mais caro, seletivo e difícil de acessar. O próprio BB admitiu que a inadimplência no agronegócio atingiu recorde histórico, puxada por produtores de soja, milho e pecuária no Centro-Oeste e no Sul.

Para o advogado especialista em direito do agronegócio, Leandro Marmo, o financiamento da safra 25/26 está seriamente comprometido:
“Desde a safra 24/25, o acesso ao crédito pelo produtor rural já vem sendo extremamente restrito. As instituições financeiras já haviam limitado ao máximo a concessão de crédito diante do risco de inadimplência”, afirma.

O custo também virou um gargalo. Segundo Marmo, com a Selic elevada e acréscimos como CAT (Custos Administrativos e Tributários), registro em cartório, seguros e até títulos de capitalização impostos no pacote, o custo efetivo total pode ultrapassar 40% ao ano, inviável para a margem da maioria das culturas.

Diversos produtores relatam que a liberação do crédito vem condicionada à contratação de seguros, títulos de capitalização, pacotes de serviços ou aplicações financeiras. A prática é chamada de “venda casada” e, quando imposta, distorce o custo do financiamento e sufoca o caixa do agricultor. “O produtor muitas vezes não tem escolha: ou aceita contratar produtos desnecessários, ou não recebe o crédito. Isso sufoca o caixa e distorce o custo da operação”, critica Marmo.

O governo anunciou um volume recorde de R$ 516,2 bilhões para o Plano Safra 2025/26, mas a realidade é que apenas cerca de R$ 200 bilhões contam com juros subsidiados pelo governo federal. Para viabilizar isso, a União vai desembolsar pouco mais de R$ 10 bilhões em equalização, cobrindo parte da diferença entre os juros de mercado e os juros cobrados dos produtores nessas linhas específicas. O restante, mais de R$ 300 bilhões, depende de recursos livres, isto é, dinheiro captado pelos bancos no mercado financeiro (o chamado funding, ou “fonte de recursos”), que é extremamente sensível à taxa Selic e aos spreads cobrados pelas instituições financeiras. Isso significa que a maior parte do crédito rural continuará sujeita ao custo elevado dos juros de mercado.

O problema não está apenas na oferta, mas também no contexto econômico. O país atravessa uma grave crise fiscal, com aumento do endividamento público e desconfiança dos investidores em relação à capacidade do governo de equilibrar as contas. Para segurar a inflação e evitar fuga de capitais, o Banco Central mantém a Selic em patamar elevado (15% ao ano em agosto de 2025). Esse juro alto, que é a taxa básica da economia, encarece todo o crédito. Quando combinado aos custos adicionais cobrados pelos bancos, o resultado chega a encargos efetivos de 30%, 35%, até 40% ao ano para o produtor rural.

Além disso, o setor agro vem enfrentando crises climáticas sucessivas, com estiagens prolongadas em algumas regiões e excesso de chuvas em outras. Esses fatores reduziram a produtividade e apertaram as margens. O produtor, já pressionado por preços internacionais em queda (como a soja) e insumos ainda caros (como os fertilizantes), se vê em uma armadilha: precisa financiar a safra para continuar produzindo, mas encontra crédito cada vez mais caro, escasso e condicionado a práticas abusivas.

Com esse cenário, a perspectiva é de um ciclo vicioso: juros altos aumentam a inadimplência, a inadimplência reduz o apetite dos bancos, e o crédito fica ainda mais seletivo e caro. Marmo alerta que a consequência pode ser ainda mais grave no médio prazo: “Quem conseguir acessar crédito agora, vai acessar a um custo impagável. A inadimplência pode ser ainda maior em 2026/27”, projeta.

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